
Antes que algum nostálgico se sinta enfurecido com a minha opinião, deixa eu explicar os meus motivos.
Primeiro, não há como negar, que de uma hora para outra (começou bem devagarzinho), o mercado fonográfico resolvou criar uma estratégia para aquecer o mercado completamente derrotado pelo compartilhamento de música grátis, pela pirataria e pela sua burra forma de entender o mercantilismo. O cenário nacional era o seguinte: você ia até uma loja de departamentos ou mesmo acessava o site desta loja e encontrava os mais variados cds, nacionais e importados, custando em torno de 35,00 reais a 45,00 e com o nada convidativo preço de 24,90 e 19,90 quando estavam em promoção. Com relação aos importados, estou sendo generoso. Era possível encontrar cds gringos ao preço de 160 reais, sem dar qualquer chance de compra aos consumidores que ganham entre 1 e 3 salários mínimos. Somente colecionadores e loucos poderiam pagar mais de 100 ou 200 reais em um produto musical.
Veio o Mp3. A primeira reação desta indústria egoísta e mega ambiciosa foi descaracterizar a qualidade do arquivo comprimido. De fato, o arquivo original não pode ser comparado ao mp3. Essa diferença ou perda de qualidade, é pouco percebida pelo consumidor de música. Vamos a um exemplo trivial e bastante comum. Quando qualquer pessoa escuta uma música no rádio a qualidade que está ali não é a mesma que se encontra no cd. Ás vezes, até a mixagem é diferente. É o que eles chamam de radio edit. A música é encurtada ou tem um tratamento nos graves e agudos diferentes da versão final. Eu aposto os dedos da minha mão que muita gente sequer consegue diferenciar uma música editada de rádio da música que se encontra no cd que ele tem em casa. Há muito sentimento envolvido na audição de uma canção. Voltando ao argumento industrial, não funcionou, não pegou e ninguém se sentiu convencido.
Resultado: uma infinidade de possibilidades de fazer downloads das músicas. E os espertos da tecnologia não se contentaram apenas em disponibilizar os mp3 singles. Discos inteiros passaram a habitar a nuvem de HDs ao redor do mundo e todos passaram a ter a possibilidade de baixar cds, de qualquer artista em qualquer lugar do planeta. Estamos falando de música, mas sabemos que esta história de download tomou conta da indústria cinematográfica e afetou também (e principalmente) os canais de tv com suas atrações e séries. Muito bem. Além da história de você poder ter a discografia do seu artista preferido, se descobriu, até de forma simples, que poderíamos manipular o formato mp3 e torná-lo de maior qualidade. Sem contar os outros tipos de arquivos de áudio que se tornaram bastante populares como o wav. Agora, vamos a santa ironia desta história toda. Por conta da explosão do mp3, a indústria do som, começou a fabricar de forma cavalar, gadgets que tocassem mp3. Os player portáteis. O mais famoso você conhece, o Ipod, tornou-se uma referência cultural e principal inspirador do celular mais desejado de todos os tempos, o Iphone. E lógico, que não só de Apple vive o homem, principalmente o homem pobre. Além de outras marcas que foram surgindo no mercado, os famosos xing-lingues chineses invadiram os standes dos ambulantes, para logo em seguida, pasmem, estarem nas lojas de conveniência, como Casa & Vídeo, Lojas Americanas, Ponto Frio e etc.

Para consolidar o mp3 como principal fonte de diversão musical do homem contemporâneo, os fabricantes de celulares passaram a embutir em seus aparelhos player de mp3, além de outros formatos. Sem contar os players de cd, dvd, blue ray e etc. Pronto, até a dona de casa de 50 anos, já leva consigo no trajeto da escola dos filhos, seu player de mp3, com suas músicas preferidas.
Depois de uma revolução social, mudando um pouco da história do planeta, de como o homem passou a consumir música, começam a surgir, aqui e ali, bandas retomando discos do início de carreira em long plays. E é lógico que essa história foi bolada pelas gravadoras. Porque não faz QUALQUER sentido, que este mesmo artista, que já nem site oficial tem (a maioria usa o myspace para interagir com os fãs e com a imprensa) e que lança seus singles para download via internet, passe a acreditar no retorno de um bolachão de quase 30 cm, difícil de levar para um lado e para outro e que ainda possui um preço absurdo levando em consideração a total ausência de praticidade.
Kiss, Green Day, Iron Maiden, The Beatles, Pitty, Legião Urbana. Estes artistas e muitos outros passaram a investir no re-lançamento de seus materiais em vinil. Até quando? Bem, em primeiro lugar, a soberania do artista sobre sua obra deve ser SEMPRE respeitada. Se o autor de uma obra acha que ela deve ser lançada em supermercados em formato de papel higiênico, isso é uma decisão que cabe ao artista, autor intelectual daquela expressão. Mas também não posso deixar de dizer, que é mais uma medida, tomada em conjunto com os ‘patrões’ e que demonstram total desespero para reverter um jogo que já está perdido há pelo menos 5 anos. Vivemos uma tecnologia em que falamos de forma absolutamente natural de tv em 3D (já existe um trabalho em desenvolvimento que fala de tv 4D), os players de blue-ray tornar-se-ão cada dia mais acessíveis à população (é possível comprar um aparelho de blue-ray ao preço de 500 reais) e as tvs de lcd, plasma e led já são realidade na vida de milhares de pessoas. Cabe no bolso da indústria, em um mundo cada dia mais minúsculo, passar a fabricar toca-discos? De que seriam feitos estas aparelhos? Teríamos que correr às assistências técnicas para trocarmos e comprarmos novas agulhas?
IMPOSSÍVEL!
É charmoso, esteticamente superior a qualquer formato surgido nos últimos 20 anos, mas é espacialmente inviável. O consumidor de música atual quer ouvir música all the time, anyplace. E é ridículo porque não dizer vexatório, abrirmos mão da praticidade por conta da beleza estética e visual de um produto – que embora seja relevante – não pode ser superior a importância do conteúdo musical. Quando a indústria exalta a beleza dos seus projetos de relançamento em vinil, incluindo novas fotografias, entrevistas e etc, está dizendo, de forma absurda, que o que vai do lado de fora tem mais atrativos do que o que vai por dentro, porque, o que vai dentro, está em cada esquina virtual, ao seu dispor e de graça! Tais atrativos não serão suficientes para banir de vez o traço de pirataria que mancha os pilares do livre comércio. Gostaria que fossem divulgados os números destas vendas, se são realmente compensadores. Porque o papo de querer compensar o fã para conhecer um formato obsoleto de venda, é mais um entre tantas desculpas que a indústria fonográfica deu em épocas em que os discos eram caríssimos para realidade brasileira.
Os fetichistas e ortodoxos fãs do bolachão dão como uma de suas desculpas para o consumo do ‘preto com um buraco no meio’ o som mais encorpado. Bem, o fator som, dependerá de uma série de fatores externos. Óbvio que a produção dos discos eram de um outro conceito de som, uma outra forma de apresentar a música. Por outro lado, as caixas de som da época em que tínhamos os famosos três-em-um, privilegiavam os graves, o que nos dava uma falsa impressão de que o disco é muito mais grave do que um cd. Existem diferentes tipos de conceito de gravação para cada trabalho. O som purificado do compact disc pode apresentar ao ouvinte mais atento, possibilidades distintas de percepção, durante todo o período de escuta daquele cd. Discussões como aquelas que debatem o sexo dos anjos.

Não consigo imaginar hoje em dia irmos ao Shopping, entre Ipods, DVDs e Blue Discs, uma estante dedicada aos LPs, com seus sacos plásticos impecáveis e custando o ‘box’ na faixa de 200 a 400 reais.
É por essas e tantas outras coisas que eu não acredito na volta do vinil. Isso não quer dizer que eu seja contra. Só acho que ela não é sincera. Porque ela não vem acompanhada de um estado de espírito da sociedade, pronta, para retomar um hábito que a atual geração não conheceu. A molecada não revive nada com o vinil, porque reviver é justamente viver novamente o que já foi. E não consigo achar que o Juquinha (sempre ele) trocará seu cellphone, com máquina fotográfica 3.2 megapixels, com 1 gb de memória de música, para levar o Lp do Mc Catra na casa do amiguinho…