E lá se vão 10 anos do lançamento do disco de covers da falecida banda Ira!
Lamento como as coisas ocorreram. Obviamente lamento o que soube pela imprensa e por alguns vídeos lamentáveis, sempre da parte do Nasi. O restante da banda preferiu a discrição. E concordo que, se o drama se tornasse mais público do que se tornou, o inimaginável poderia acontecer, talvez, uma tragédia maior.
Vamos falar de música?
Bem Isso é Amor (1999) não é um disco muito fácil de ser encontrado por que é um daqueles que foi produzido sob a batuta da também falecida Abril Music. Desafio você a procurar vários discos, não só da Abril como da Paradoxx. O resultado é decepcionante e tenho muita curiosidade de quem é a custódia destes fonogramas.
Não é um cd caça níquel, aproveitador. Porque a banda se propôs a homenagear alguns artistas e também suas canções sem soar tola. Vamos faixa por faixa, de forma bem basica.
Bebendo Vinho (Wander Wildner) – Com certeza você já deve ter visto o compositor desta música em algum momento, principalmente na Mtv. O gaúcho com dentes posicionados esquisitamente em sua boca, fora membro de uma banda chamada Replicantes e que ficou muito conhecida nos anos 80. O teor da canção é simples: um gaúcho (por que ser?) falando de sua estadia no Rio de Janeiro e de como se senti só. Um cover nada óbvio de um artista de véu cult.
Teorema (Legião Urbana) – A canção que faz parte do primeiro disco da LU tem aqui um arranjo meio Beatles. Muito violão e uma guitarra bem interessante. É uma pena que Nasi não tenha utilizado-se do seu parceiro Scandurra para fazer o belo arranjo vocal que Renato fizera em sua debut disco.
Telefone (Gang 90) – Em 83/84 essa música tocava muito no rádio. Era o Gang 90. Personificado pela figura de seu vocalista e poeta Julio Barroso (morto em 1984 caindo da janela de seu apartamento em SP). Nesta versão, Fernanda Takai e sua belíssima voz dão doçura ao pequeníssimo dueto com Nasi. Uma excelente devida homenagem a uma das bandas de carreira curta, mas percussora do rock brasileiro, princialmente no RJ.
Chorando pelo Campo (Lobão) – Sou fã do Lobão de graça e esta é uma das canções mais lindas que ele compôs. Tem uma melancolia rara nas canções de Lobão, um cantor mais conhecido por sua veia verborrágica desbocada e seus versos quase sempre assimétricos. O arranjo tem a cara do Ira! (e não poderia ser diferente). Quase um surf music. Linda canção.
Flashback (Dalto) – O Dalto é um cara que tem uma história na música brasileira muito tímida. Embora fosse um sucesso radiofônico grande nos finalzinho dos anos 70 até 85/86. “Muito estranho” foi o seu maior hit. É da mesma geração de Fábio Jr, Gilliard, Jessé, embora, fosse um compositor (estes são mais conhecidos como intérpretes) muito sofisticado. Sempre fará parte daquela galeria de artistas injustiçados e que terão algum valor após suas mortes e creditados como grandes em documentários, filmes e homenagens.
Um Girassol Da Cor De Seu Cabelo (Lô Borges) - Conheço pouquíssima coisa do famoso Clube da Esquina, aliás, um dos menos documentados movimentos da música brasileira. Sabemos muita coisa do BRock, da Tropicália, da Jovem Guarda e até da lambada, mas a fase que contemplou Lô Borges, Flávio Venturinni, Wagner Tiso, Milton Nascimento, mereceia melhor destaque. Aqui, nada melhor do que chamar um autêntico mineiro, Samuel Rosa, para fazer referência a um dos seus ídolos, Lô Borges. Gosto muito dos agudos finais de Samuel, que sempre teve um relacionamento com o Ira! de recíproco respeito e amizade. Uma excelente versão.
Mudança de Comportamento (Ira!) – Primeiro disco do Ira! e a música soa tão moderna como se tivesse sido composta hoje. Uma auto-homenagem merecidíssima e demonstrando que a proposta musical do Ira! manteve-se fidedigna ao seu estilo. Uma escolha plenamente aceitável. Vale ouvir também conferí-la no Acústico do Kid Abelha. O Ira! como venho falando durante o post, sempre teve um respeito muito grande por parte de sua geração.
O Que Me Importa (Cury) – Essa música fez o maior “auê” quando regravada pela diva Marisa Monte, 4 ou 5 anos após a versão do Ira!. Isso é um fenômeno que vi acontecer em mais duas ocasiões. A primeira delas quando Renato Russo regravou Cathedral Song (Tanita Tikaran) em inglês e Zélia Duncan, em mesmo período fez sua versão em português e ganhou as rádios até encher o saco, com o perdão da expressão. A outra vez foi o Biquini Cavadão quando em seu cd “Escuta Aqui”, gravou “Pra Terminar”, canção de Herbert Vianna. Alguns anos depois, a talentosíssima e igualmente chatíssima Ana Carolina deu sua cara a canção e mais uma vez, dominou as rádios, com seu vozeirão. Impressionante. Mesmo assim, confiro um empate técnico entre a versão do Ira! e da Marisa.
Jorge Maravilha (Julinho da Adelaide) – Sei pouquíssimo sobre esta canção embora ela me seja bem familiar. Imagino que ela foi fruto de alguma discussão na escolha do repertório para este disco, uma vez, que é bem diferente do que o Ira! fez em todos os seus discos até aquele momento. É a que menos gosto. Tem aquele jeito samba-rock muito conhecido por compositores como Jorge Ben Jor e Bebeto.
Abraços e Brigas (Scandurra) – Acho que essa é uma das únicas músicas inéditas deste disco, se não é da carreira solo de Edgar. É uma boa música, mas não acrescenta muita coisa ao projeto.
Sentado À Beira do Caminho (Roberto Carlos) – Essa é a época boa do Roberto. Onde ele e Erasmo eram cronistas musicais de primeira linha. Uma homenagem no nível que só o Ira! poderia oferecer. Uma letra excelente, um arranjo que tem umas guitarras que lembram Radiohead. Muito bacana.
A Vida Tem Dessas Coisas (Ritchie) – Como são as coisas… o Ira! coloca na “orelha” de seus fãs, referências interessantes da música brasileira, que, em 99, passariam batidas (não havia o revival ou Festa Ploc) e desconhecidas. O Ritchie era um compositor muito interessante. Como um cantor inglês conseguiu adquirir um dna tão nacional na sua arte, vindo de outro continente? Não sei. Sei que esta canção também tocou MUITO no rádio. Lembranças boas…
Vale ressaltar, Bernardo Vilhena um compositor prolífico dos anos 80, aparece mais uma vez nesta canção, pois em Chorando Pelo Campo, ele é co-parceiro de Lobão.
Alegria de Viver – Uma versão de Scandurra, que aqui aparece cantando. Gosto da voz do excelente guitarrista, mas esta é mais uma canção, que sinceramente, não acrescente nada ao projeto. Poderia ser utilizada em outra ocasião. Além de ser bem repetitiva.
Minha Gente Amiga (Ronnie Von) – Surpreendente a inclusão desta canção, por seu cantor e compositor – Ronnie Von – e porque ela é uma espécie de música símbolo de uma geração. Tipo aquelas músicas que são emblemáticas de uma época. Era muito comum nos anos 70 e 80 canções-convites. Aquelas nas quais na letra, o compositor felicitava/agradecia/cumprimentava todos por um motivo específico ou não. Neste caso, aqui serve como uma “despedida” do cd ou um “grande abraço” a todos os homenageados do cd. O disco termina muito bem.
Ufa! Semana que vem tem mais! That’s All Folks!!!