Eu sempre fui “mais” fã do Renato (Legião) do que do Cazuza, em todas as suas fases. Achava o cantor legionário mais sofisticado e profundo, para falar, dessas dores cardíacas que os adolescentes e adultos, conhecem bem, de tanto sentir.
Quando me detive em colecionar o maior número de cds de rock brasileiro, construindo um acervo que deixa saudade de tantos momentos, reparei que Cazuza era realmente especial. Nem tanto por sua passagem pelo Barão, que possui clássicos como Bete Balanço, mas em sua carreira solo, que foi curta mas imensamente explorada, principalmente após sua partida.
Como cantor, Cazuza lembrava qualquer vizinho cantando impacientemente em um karaoke maldito, mas como intérprete de suas canções, Agenor exalava autenticidade. E o que pode parecer uma redundância rasgada, pode se explicar quando o conceito de autenticidade é o que mais se aproxima de originalidade e ser original musicalmente falando, é uma tarefa pra lá de difícil.
Se vocês repararem sem qualquer acuidade, perceberão que Cazuza por vezes “citava” suas letras ao invés de cantá-las. Suas letras possuíam métrica muito particular, impossibilitando a construção de melodias com refrões mais açucarados, de tantas possíveis rimas. Talvez quem tenha contribuído fortemente com isso, foi o seu contato com o blues do Barão, que sempre foi mais blues do que rock. É que no Brasil, tem guitarra, é rock.
Lamento profundamente, que genialidade quase sempre tenha relação com vida conturbada, exageros e outros lugares comuns de quem prefere viver a mil por hora. Vendo o depoimento dos amigos que ele deixou, todos possuem além das lágrimas, um certo indulto pra tudo que o poeta fez fora do palco. É tão óbvio dizer isso, mas foi exatamente o privado é que tornou sua vida pública mais curta…
Cazuza tinha uma inquietação própria daqueles que precisam dizer tudo, todos os dias. Sua música se parece pouco com qualquer coisa que se conheça na música brasileira ou mundial. Sua forma de compor emprestava uma assinatura indelével para sua obra, que é respeitada por todos, público e crítica.
Gosto de medir a importância de um artista pela saudade que ele causa e Cazuza ou a ausência de sua presença (como poetizou Ezequiel Neves, seu “tudo”, no programa de tv global Por Toda A Minha Vida) tornam os tempos de hoje no rock brasileiro, piores do que eles aparentam ser. Os tributos, homenagens, coletâneas, não são apenas oportunistas (e sempre serão), mas também o clamor do barulho das máquinas, pelo fim da produção, de música relevante no nosso país.
Durante muito tempo exorcizei do meu parco vocabulário a expressão “música inteligente”, porque música não é pra ser entendida, mas percebida pelos sentidos da alma e do corpo, portanto, aplicar teste de QI em música, é colocá-la em garrafas de vinho, com ano de produção e data de validade, mas, não dá pra enquadrar a música de Cazuza, no Barão ou fora dele, como música comum, ordinária.
Outra característica presente na obra genial de Cazuza é a melancolia. E uma sequidão, muito própria do concretismo que parece ter sido o estilo literário preferido do músico carioca. A forma dura e coloquial de expor sentimentos em versos como “Eu vi a cara da morte e ela estava viva” ou mesmo frases como “vida louca, vida breve, se eu não posso te levar, quero que você me leve”. O molho da música, tira o peso filosófico e existencial de dizer que a vida não é mais a passageira, mas a passagem para o outro lado de qualquer coisa desconhecida.
A música pode ser um carro fantástico ao passado. Te leva por lugares conhecidos, mas que fazem ainda nosso olhar brilhar; como se não fossem avistados ou visitados por tantos outros que por ali mesmo passam, todos os dias. A música aciona o botão da lembrança, para sensações já vividas e experimentadas e mesmo assim, azeita o gosto novo do poder de se emocionar, como se a voz de um mudo, pudesse te cantar a vida.