Como o Aliterasom já havia adiantado, hoje publicamos uma entrevista inédita com Marcelo Camelo. Eu e meu parceiraço André Rocha (Futebol & Arte) formulamos as perguntas e graças ao queridíssimo Alex Werner (obrigado + 1 vez) e ao suporte do próprio André, podemos nesta parceria inédita colocar este bate papo virtual para nossos também queridos leitores.
Sem mais, Marcelo Camelo:
FUTEBOL & ARTE / ALITERASOM - Você é muito prolífico. Compõe para Los Hermanos, sua carreira solo e ainda sobra material para outros artistas. Depois de doze anos de carreira, o processo hoje é mais simples, ou menos”sofrido”, do que antes? (André Rocha)
MARCELO CAMELO - Não. O processo vai ficando mais complexo, mais rico mesmo que caminhe em direção a simplicidade. Porque o processo é tudo, é o “como”. A partir dele que as criações se dão. Eu procuro mudar o processo usando de expedientes diferentes pra compor em cada época da minha vida. Foi algo que fiz naturalmente até agora e só passei a ter consciência sobre isso neste último disco. Eu componho muito porque é só o que eu faço da vida quase. É isso e as tarefas dométicas. Pra quem leva isso como ocupação diária acho até que componho pouco. Mas é porque eu nao tenho mais pressa, eu deixo a música se fazer na cabeça e nem pego mais instrumento ou caneta, só muito de vez em quando. É neste processo que estou agora. De uma certa forma é um aprofundamento do processo anterior, deste último disco.
FUTEBOL & ARTE / ALITERASOM - Dá para perceber que sua maneira de compor está mais relaxada e tranquila, com as letras, que antes tinham uma construção muito cuidadosa, se transformando num veículo para a melodia vocal e a harmonia. Isso é uma tendência ou uma “fotografia” do seu momento atual? (André Rocha)
MARCELO CAMELO - Eu acho que a música que eu faço é um espelho pra mim e me transforma. Ela serve de interlocutor pras minhas coisas importantes e depois das músicas eu mudo. Meu jeito de ser, de olhar a vida. Aí a música que vem posteriormente é quase que uma declaração desta mudança então de muitas formas se relaciona com o que eu fiz anteriormente. É um processo mesmo, como andar em que é preciso opor uma perna e a outra pra se ir pra frente.
FUTEBOL & ARTE / ALITERASOM - A maturidade que vem com os anos e a confiança em seu público fiel é que estão lhe dando a segurança para buscar novos caminhos musicais e parcerias que antes soariam como “inusitadas”, como a com Ivete Sangalo, na belíssima canção “Teus Olhos”? (André Rocha)
MARCELO CAMELO - Eu sempre me senti livre pra gostar das coisas. Já há muito tempo não divido mais as pessoas . Por isso eu vou com quem gosta de mim, porque assim eu me sinto bem. No caso da Ivete eu acompanho a carreira dela desde a banda Eva. Eu tenho um disco ao vivo deles que me influenciou muito.
FUTEBOL & ARTE / ALITERASOM - Uma pergunta sobre futebol: O que está achando do Vasco deste ano? Você é um daqueles vascaínos que acham que o trauma e a experiência na Série B podem ser úteis para o clube no futuro? (André Rocha)
MARCELO CAMELO - Eu tenho simpatia pela meritocracia. Acho um sistema que pode funcionar. No esporte não vejo outra solução a não ser aferir esse ranking na colocação dos pontuados. Se o Vasco não consegue se estabelecer como clube por causa das suas confusões administrativas, que fragilizam nosso orçamento, comprometem nossa escalação, a Série B pode ser a oportunidade pra reerguer o clube. A gente não pode esquecer do tamanho do Vasco, do tamanho da torcida, e da importância do clube na história do futebol nacional. A série B é um capítulo nesta história grande. Imagina se nas grandes aventuras da vida a gente quisesse pular fora do barco nestes momentos? Acho que pode servir, sim, como ferramenta pra modificar as estruturas do clube, para melhor, e também de um jeito mais poético e bonito pra reafirmar o tamanho da nossa força quando conquistarmos nosso próximo grande título.
FUTEBOL & ARTE / ALITERASOM - Fui convidado para o evento “Loucos por Música” no Canecão, evento a qual os Los Hermanos participaram, incluindo uma canja do queridíssimo Belchior. Á época, conversamos rapidamente nos bastidores e uma das perguntas que eu te fiz foi sobre as harmonias mais intrincadas do “4″ e você levemente me disse que “Fez-se Mar” você fez pensando na voz da Alcione cantando. Teve oportunidade de dizer isso à “Marrom”? (Daniel Jr.)
MARCELO CAMELO - Não, ainda não. Mas um dia ela canta essa. Vai ser uma emoção forte.
FUTEBOL & ARTE / ALITERASOM - Nessa mesma oportunidade, embora solícito e sempre educado, percebi em você uma certa desconfiança no bate-papo. Nada que fosse ofensivo – jamais te vi em tal posição – mas a situação parecia-lhe desconfortável. Em outras ocasiões, em “entrevistas profissionais”, enxerguei esta mesma postura, quase arredia. Isso é fruto de uma relação com a imprensa que nem sempre foi das melhores ou uma percepção absolutamente equivocada da minha parte quanto a sua timidez? (Daniel Jr.)
MARCELO CAMELO - Não me sinto tímido diante da média das pessoas. Por isso acho engraçado quando falam isso e muitas vezes me pergunto como posso desfazer essa impressão. Mas falar de si pra algumas pessoas é mais fácil do que pra outras e suponho que isso não tem a ver com timidez. Tem gente tímida a beça que só fala de si, não tem? Eu gosto de conversar sobre outras coisas pra me transformar. Quando alguém numa conversa casual pergunta muito de mim eu não fico encabulado, fico mais desinteresado. Me dá um pouco de preguiça já que tudo que queria era ouvir sobre ela, sobre esta outra pessoa. Entrevista eu faço pra divulgar a música, os shows, a carreira. Mas em conversa casual eu não gosto muito de falar dos meus acordes.
FUTEBOL & ARTE / ALITERASOM - Acho o “4″ um disco bem escuro. Pela ausência dos metais (sempre floreados), pelos instrumentos mais esteticamente reduzidos e espalhados, pelos temas, pela capa, enfim, pela concepção. Quando me refiro a escuridão do disco, não é fazendo alusão a claridade = ótimo, escuridão = péssimo. É só uma opinião dos sentidos. Já “Sou”, tem momentos de “inverno” (desculpe fazer alusão às estações) e em outros ele é bem solar. Muita coisa mudou no Marcelo Camelo entre um disco e outro? (Daniel Jr.)
MARCELO CAMELO - Sempre muda. O que eu não sei exatamente e acho que o disco é a minha melhor tentativa de explicar.
FUTEBOL & ARTE / ALITERASOM - Lembro-me que no Luau Mtv você fez alusão ao Cake, banda americana muito bacana. Você ainda acompanha o cenário do rock lá fora? E aqui no Brasil, entre tanto trabalho, dá para descobrir novos artistas? (Daniel Jr.)
MARCELO CAMELO - Eu acompanho tudo. O John (integrante do Cake) quando foi no Rio foi lá em casa e tocamos juntos. Ele ficou louco com a Ivone Lara. Acho bonito essas diferenças imemoriais da musicalidade de cada povo. Como os acordes da Ivone inebriaram o cara. Eu acompanho tudo pela internet, de diversos jeitos. Pelos blogues, aleatoriamente, pelo que ouvi falar de algum amigo e posso ir atrás, de muitos jeitos mesmo.
FUTEBOL & ARTE / ALITERASOM - Marcelo você já baixou música alguma vez? Li que a Ivete trocou alguns e-mails com você para falar da canção “Teus Olhos”. Você usa muito da web ou é avesso ao recurso? Acabo de ver que você twittou… Marcelo twittando… novidade pra mim. (Daniel Jr.)
MARCELO CAMELO - Eu não uso o twitter, não. O Alex que trabalha comigo é que cuida destas atualizações que não são nada pessoais, acho que só tem as aparições na tv, os shows, essas coisas. Eu baixo música sim. Não muito porque não sinto a necessidade de ter a música comigo. Eu vou lá no youtube e procuro. Geralmente vem com um show ou um clipe então é ainda melhor.
FUTEBOL & ARTE / ALITERASOM - Gosto muito de escutar o primeiro disco, “Los Hermanos”, no fone de ouvido, porque acho que ali tem arranjos muito, muito, muito bons! Excepcionalmente o baixo. Patrick faz linhas lindas. Nos discos seguintes, ora você, ora o Rodrigo, ora o Kassin, revezam-se no instrumento. Acho você um músico de exceção e gosto muito da forma como você sublinha a música quando toca baixo. De onde vem a relação com este instrumento? (Daniel Jr.)
MARCELO CAMELO - Justiça seja feita, muitas daquelas linhas do primeiro disco são do Victor, que tocava baixo conosco antes do Patrick. Ocorre que nesta época ainda havia alguma vaidade que impedia o fluxo total de idéias entre nós. A saída do Patrick e o início dos trabalhos no “Bloco do Eu Sozinho” foram um momento de transição quando passamos a interagir mais com os instrumento que não tocávamos. Os arranjos a partir de então passaram a ser mais coletivos. Eu acho o baixo um instrumento misterioso. É o que eu tenho mais dificuldade de compreender. Acho o Ruivo (Rodrigo Amarante) um grande baixista, um dos meus favoritos, e o Kassin também. Eu faço o que posso mas como não tenho trejeito de baixista encontro soluções próprias. Fica carismático. Mas eu tô melhorando.
FUTEBOL & ARTE / ALITERASOM - Qual o seu tom favorito? Me lembro de em 2003, ter dito a você que os tons menores eram um pequeno fetiche da banda. Você disse que isso era motivo de piada entre vocês…(Daniel Jr.)
MARCELO CAMELO - Não tenho isso, não. Minhas músicas também modulam de um jeito meio torto muitas vezes. Estou evitando entender a música, pra te falar a verdade. Assim, nestes termos é entendimento, né?
FUTEBOL & ARTE / ALITERASOM - E os Imprevisíveis? Alguma previsão de trabalho com a contribuição sonora do Sr. Alex Werner? (Daniel Jr.)
MARCELO CAMELO - O Alex é o farol da modernidade. É só ouvir! A gente um dia remonta nosso projeto bateria e guitarra, que era demais. Mas “Os Imprevisíveis” são imprevisíveis.
FUTEBOL & ARTE / ALITERASOM - Marcelo, já há alguma previsão para um novo disco seu? (Daniel Jr.)
MARCELO CAMELO - Estou fazendo as músicas. Não sei ainda. Não tenho pressa de quando, mas gostaria de conseguir gravar entre esse ano e o ano que vem.
FUTEBOL & ARTE / ALITERASOM - A questão do compartilhamento de Mp3 é redundante, cíclica. Imagino quantas milhares de vezes um artista já respondeu a respeito de mp3, Kazaa, direitos autorais. De uns tempos pra cá, muito se falou do retorno do vinil. Fisicamente inviável, do ponto de vista das gravadoras um “jeito” esquisito de conter a pirataria, quem sabe? E você, acha possível que ainda andemos com os bolachões por aí, para ouvir na casa de amigos? (Daniel Jr.)
MARCELO CAMELO - Acho que o novo tempo é mais plural. Contém mais diferenças porque deu oportunidade de expressão à todos pela internet. Então dá pra ter colecionador de tudo. Acho que vai haver de tudo. Pra indústria interessa o que a maioria está consumindo. Hoje a renda do artista se dá pela soma dos muitos meios de explorar sua arte. Pelo celular, pela internet, pelo CD, livros e vinil. Se inventarem outro a gente vai atrás também.
FUTEBOL & ARTE / ALITERASOM - Confesso, Marcelo, que entre tantas palavras que li acerca do “hiato por tempo indeterminado”, cansaço era a que mais se repetia. Pensei que você ficaria recluso, na “surdina”, e, num tempo distante, voltaria a sua rotina musical, de gravar, compor, cantar,enfim, aquilo que você saber fazer como poucos. De repente, o tempo não foi tão longo e você já tinha disco, turnê, tv, show com os barbudos… Perguntinha que não quer calar: e o cansaço, se referia especificamente a quê? (Daniel Jr.)
MARCELO CAMELO - Cansaço do processo coletivo, eu acho. Que é muito maneiro mas que cansa. Foi uma saturação penso, de muito trabalho por muito tempo, e muitos desejos se acumularam, não só em mim, percebe-se pela trajetória dos meus amigos. Mas acho que foi a melhor coisa que fizemos. Não decretar o fim de um coisa tão linda porque ela não terminou, só se suspendeu. Agora está em suspenso e quem tem amor por aquilo que aprenda a lidar com este fato, com esta indeterminação. Acho bonito.
FUTEBOL & ARTE / ALITERASOM - O famoso jogo de truco entre os hermanos, rola? Como fã da banda, me dá uma “agonia” intrometida ver o Bruno fazendo outra coisa que não é música, embora faça com talento singular. E por onde anda o Barba? (Daniel Jr.)
MARCELO CAMELO - O Barba continua destruindo. Tá tocando com o Canastra, eu toquei com ele há uns meses e foi muito maneiro. Por tudo. o Barba é meu amigo mais antigo na banda, fora o Alex. Foi com ele que eu tive as primeiras bandas. Foi com ele que o Los Hermanos começou. Dá muita saudade de tocar com ele. O Bruno é um escritor fora de série. Ele está escrevendo um livro, e eu não sei se posso falar isso mas não lembro dele ter me pedido segredo. Eu aposto nele como escritor. Vejo pouca gente desta idade com tanta qualidade no texto. O Ruivo tanto na Orquestra quanto no Little Joy é demais de ver sempre. Eu acompanho a beça, fui no show deles lá no Circo Voador. Eu joguei muito truco com o Barba porque ele foi criado lá em Poços de Caldas e o pessoal por lá joga muito. Eu já vivi uma cena lá que se um dia fizessem um filme sobre truco a cena final de todas poderia ser a que eu vivi lá com o Barba, na casa do Sambril, no QG pré-carnavalesco. Os caras bebem uma cerveja chamada royall, que eles chamam de “tapa na testa” e que tem teor alcóolico alto pra cacete. Na final a gente tava perdendo de 14 a zero, prestes a ter que passar por debaixo da mesa, mas eu vim com o zap e a segunda mais alta, os caras caíram na pilha e trucaram até virar. Foi lindo. Na minha memória comprometida foi tipo Spielberg.
FUTEBOL & ARTE / ALITERASOM - Você é um dos poucos compositores atuais, olhando com acuidade, que possui uma preocupação com o que escreve. Nos extras do “Los Hermanos no Cine Iris” existe um momento em que você está trabalhando nas letras, sonoridade, sinônimos e até se refere a uma certa “radicalidade” de algumas palavras. O que dá mais “trabalho”: a harmonia ou fazer o casamento entre letra e música? (Daniel Jr.)
MARCELO CAMELO - O que eu faço hoje em dia é provocar uma fagulha de pensamento, de melodia, e depois deixar a cabeça fazer o resto, com o mínimo de esforço possível. Encontrar um ponto de partida e depois deixar o tempo fazer o resto. Como eu te falei, minha relação com isso muda muito. Já não componho daquele jeito, embora carregue aquele jeito em mim.
FUTEBOL & ARTE / ALITERASOM - Você, Rodrigo e Bruno, fizeram Comunicação Social. Barba, se não me engano, Psicologia. O que fez com que você não concluísse o curso? A notícia de que é possível exercer jornalismo sem o “canudo” arrefeceu alguns formados e profissionais da área. O que você, um “ex-futuro jornalista”, acha a respeito? (Daniel Jr.)
MARCELO CAMELO - Isso de nego querer controlar a coisa por um critério que não seja o mérito é quase sempre contraproducente. Eu não terminei porque arranjei um outro interesse. Mas a classe jornalística dá constantemente manifestações ridículas com opiniões que sempre, nas questões que tangem a profissão, defendem cegamente seu próprio lado, como na lei de liberdade de imprensa em que instigam tempos obscuros de ditadura pra poder seguirem livres de serem responsabilizados quando fazem cagada. O jornalista pode acabar com a vida de alguém injustamente e continuar trabalhando no mesmo lugar, pago pelo mesmo serviço. Liberdade todo mundo quer. É ridículo chamar isso de liberdade de imprensa, essa irresponsabilidade.
FUTEBOL & ARTE / ALITERASOM - Marcelo, conte, se for possível, um pouquinho da parceria entre você e Alex Werner. Tempos de PUC, Los Hermanos e hoje, em sua carreira solo. (Daniel Jr.)
MARCELO CAMELO - O Alex é meu amigo há muitos anos, da época de escola. Primeiro tivemos uma banda e depois a gente ficou tão amigo que decidiu fazer um fanzine. Eu não fazia idéia do que era aquilo porque só escutava música em casa, no cd. O Alex não, já tinha ido a muitos shows underground. Foi ele quem me apresentou pra esse mundão e música independente. E durante o fanzine passamos a ir a muitos shows juntos. Minha formação musical durante muito tempo caminhou lado a lado a do Alex. E desde o primeiro ensaio do Los Hermanos ele tava, eu liguei pra ele e chamei pra ser nosso empresário, o que na época significava ajudar na panfletagem dos shows, nas xerox, ajudar no corre mesmo, copiando as demos.. A gente levou esta parte como uma extensão do fanzine. Era quase que uma oficina que a gente tinha, tinha a máquina de xerox da mãe do Alex, as tesouras, arrumamos um grampeador grande pra grampear o fanzine no meio. Já tinha um know how na produção.
FUTEBOL & ARTE / ALITERASOM - Vi sua entrevista no Pontapé Inicial (ESPN Brasil) e ouvi seu comentário de que tinha sido uma das suas melhores entrevistas e de forma divertida, disseste que se soubesse que era tão bom, daria outras. Teve alguma entrevista que tu deste, neste tempos ou em outros, que te chatearam? (Daniel Jr.)
MARCELO CAMELO - Entrevistador da área cultural é uma carreira difícil. Porque é um terreno escorregadio esse de falar de arte. É difícil o cara que tem o ponto certo de entender que é uma manifestação estética, em que o pensamento não é pra ter tanta importância, e ao mesmo tempo saber que existem diversos códigos ali em jogo e entrar naquelas camadas de compreenssão sem achar que música é só comportamento. É um campo de atuação pequeno, pra gente vivida e sensível. Os outros assuntos são mais objetivos, os repórteres estão mais acostumados com o mundo vivo, de verdade. Fica tudo mais pulsante por ser mais claro. Gosto também. Gosto bastante de conversar.
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Todo mundo fala MUITO BEM do Bloco do Eu Sozinho. Eu também, mas é o Ventura que tá com capa, plástico e toda a caixinha “ferrada” de tanto abrir e fechar, pois aqui em casa se escutou esse disco até furar! A música pop consegue se casar numa espécie de banda que prima por arranjos que escolhem a beleza e a emoção como cartão de visita. Os temas (letras) podem ser simples como de Alem do Que Se Vê ou Do Sétimo Andar, mas um coração atento ao deslize, não pode passar batido ao bom gosto dos eternos barbudos.
O pessoal da minha idade (entre 30 e 35 anos) conhece o Extreme por duas canções: More Than Words e Hole Hearted. A primeira é daquelas baladas para chorar e chorar e chorar. Duas vozes, dedicadas e um violão muito brasileiro. Hole Hearted já é uma canção hard estilo Mr. Big, feita pra “todo mundo cantar junto”. Estas canções fazem parte do disco Extreme II Pornograffitti. Porém o meu preferido é IISTES. Um disco conceitual que fala de liberdade, religião, política. Um disco na qual pouca gente prestou atenção (assim como o mais recente, da “volta”, Saudades do Rock), com arranjos de cordas fabulosos, com vocais lindos e com músicas bastante inspiradas. É uma pena que não tenha recebido a devida atenção do público e até mesmo dos fãs.
Lembro-me perfeitamente de quando cheguei numa loja de discos na Pça Tiradentes, no centro histórico do Rio de Janeiro e procurei por este lançamento. Faith No More era uma “nova mania” entre roqueiros. Mesmo os não tão convictos. Este disco tivera pouca badalação, mas me lembro de ter ouvido Small Victory (e o clip também é lógico) e ficara completamente chapado! E para variar (repararam que sempre vou na contramão?) acho este disco muito melhor que o The Real Thing, o mais conhecido da banda de Mike Patton. O Nu Metal (?) não existiria se não fossem os timbres, os pesos e a “coisa melódica” que sempre acompanhou a banda. Um discaço.
Este disco é o único da carreira da banda novaiorquina que não ganhou Disco de Ouro. O quarteto mascarado formado aqui por Gene Simmons, Paul Stanley, Eric Carr e Ace Frehley estava querendo ir em outras direções musicais. Para que você tenha idéia, tem até parceria com Lou Reed (Velvet Underground), coisa absolutamente impensável para uma banda mais conhecida pelo seu hard rock “bem” americano. Bem, pelo menos para mim, neste disco tem pérolas, hoje valorizadas pelos fãs mais antigos, como Odissey e Just A Boy. Reza a lenda, que as guitarras de Ace Frehley (que canta em Dark Light) foram gravadas por telefone e que sequer ele teria encontrado com o resto da banda para discutir o conceito do disco… Existem apresentações da banda ao vivo, na qual se vê que a interação entre eles não é mais a mesma, mas ficou o disco. E que disco!
Num certo período da minha adolescência eu só tinha ouvidos para Legião Urbana. Principalmente no que se referia aos três primeiros discos. Fui ter o disco muito tempo depois (meu tio tinha um enorme ciúme da sua discografia), na época em que já era cd. O curioso é que, á época do lançamento eu morava em Brasília, terra da banda e, mesmo de forma tímida, senti o pequeno impacto que a banda lançara sobre o cenário do rock nacional. Obviamente que com 10 anos achara as letras muito chatas e sem sentido. A reverberação da obra iria me alcançar aos 14 anos, portanto 4 anos depois. Foi tão forte que “graça” a esta descoberta que não me lembro de nada que eu cultuasse com mais ardor do que Legião Urbana. Passei a ter gosto pela poesia, por arranjo, por letra de música, por tocar um instrumento, enfim, o Dois determinou na minha vida, uma vida.
*O retorno de